sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Da paixão pelo personagem



O livro é um animal vivo.
Aristóteles

A chuva parou... Antes houvesse continuado. O silêncio que vem depois da chuva é um dos barulhos mais enlouquecedores que eu já senti; o vento grita no meu ouvido, ri na minha cara, enquanto o frio debocha da minha solidão. A natureza é mesmo canalha ― dizia para o filtro antigo no canto esquerdo da área de serviço. Ei, o que é isso? Rato? Rato na chuva? Que que é isso, esse rato nada melhor do que eu. Sai pra lá, desgraçado! Só me faltava agora ser atacado pela peste bíblica. Olha só o desgraçado olhando pra mim. O quê? Ele... ele piscou o olho, olha só, ele piscou o olho pra mim. Mas que cara de pau, esse filhote de toupeira nem me conhece e vem com essas intimidades. Era só o que me faltava... Êpa! Espera aí... Espera aí... Mas que diabo é isso? É impressão minha ou o mundo está meio torto pro lado esquerdo? Eu hein! Melhor voltar pra dentro; a droga desse vinho, além de me causar uma azia infeliz, ainda me entortou o mundo ― e caminhou até a sala sobre o chão inclinado. Aqui no sofá está melhor. Bem melhor! Mas e aquele idiota hein?! ― disse de súbito se virando para o abajur da sala. Irritante, muito irritante, como alguém pode ser tão estúpido? Se eu tivesse lá teria enchido aquele abestado de bolacha, onde já se viu alguém tão tapado?! Todo mundo percebia que a mulher só queria brincar com o otário, que ela se deitava com todo sacana que aparecia ― olhe lá se não tiver dado até pro Rex, que aquele cachorro é bonitão, tenho que admitir ―, e o imbecil com aquela cara de tacho: Ela é tão linda, meu bebê. Idiota duma figa! É ou não é um estrupício, um lerdo desse? ― perguntou ao abajur, que não deu bola. Um homem nessa idade não conseguir nem duvidar da honestidade da noiva? Ontem ― continuou ―, quando eu lia o capítulo vinte e três, por pouco, por muito pouco, não quebrei essa escultura na cabeça do imbecil, se eu tivesse condição teria entrado lá e lhe dado uma surra daquelas, como pode um marmanjo daquele entrar no quarto, pegar a noiva deitada com outro na cama e acreditar que ela estava com dor de cabeça e que o cara com ela era o médico? Tudo bem que os dois estavam vestidos, mas espera aí, vai ser estúpido assim no inferno! Concorda comigo? ― mas o abajur não queria conversa. Saquei: quem cala consente! Mas olha, durante esses últimos dias, nessa última semana, eu realmente me irritei com aquele cara, todo mundo pode ser feito de bobo, mas há um limite, por favor! Eu também nunca engoli aquela história de o imbecil dar cem reais a um cara que bateu na sua porta pedindo um trocado para uma operação da filha; com certeza, aquele cara bebeu todo o dinheiro, deve ter morrido de coma alcoólico depois de cem reais de cachaça. Ai, ai, minha cabeça num tá legal... E aquela história de aceitar ganhar menos no trabalho por que a empresa estava enfrentando dificuldades? O patrão de carro novo, mansão, viajando pelo mundo e o mané acreditando que o chefe era gente boa. Gente boa! Gente boa pegando a mulher dele que eu li lá na página oitenta e cinco. E o imbecil ainda se recusou em ir pra cama com a secretária; uma gostosa daquela! Ah jumento do meu abuso! Eu vou dizer viu, nunca mais eu leio um livro com um personagem desses, dá próxima vez que eu começar um e o protagonista me vier com essas baitolagens, eu fecho logo e parto pra outro, sou nem zé ruela pra ficar paparicando marmanjo abestalhado. Não é não, meu querido? ― e deu um tapa no abajur semelhante à tapa no ombro de amigo, o que foi uma péssima idéia, já que o abajur não tinha ombro, nem pé para evitar a queda. Putis! Mas que merda, derrubei o abajur. Olha aí, é o segundo que eu quebro este ano. O próximo que eu comprar vou fixar na mesinha com prego Cabral. Porcaria de bicho mais fraco!




Imagem: Honore Daumier, Don Quixote Reading, 1865-70. National Gallery of Victoria, Melbourne, Australia.

domingo, 15 de novembro de 2009

O Adeus




Olhou para trás
como se dissesse adeus,
porque era adeus que dizia.

Enxugou as lágrimas
com aqueles dedos delicados
e sorriu como se chorasse.

Olhou o chão fixamente;
firmemente para o que não estava lá.
Sorriu chorando soluçante,
disse adeus com a voz trêmula,
e sussurrou um até logo
com voz de nunca mais.

Deu-lhe as costas
que lhe bateram na cara encharcada,
e deslizou para um mundo que não era o seu,
distante dos seus dedos que,
naquele momento,
moviam-se esquizofrênicos,

deixando-lhe a lembrança daquele rosto
partindo entre seus olhos naufragados,
a boca engasgada
e as pernas enrijecidas
pela angustia da agonia.



In: Lial, William. O mundo de vidro. Fortaleza: Imprece, 2005.
Imagem: Caspar David Friedrich (1774 – 1840), The Wanderer above the Mists,1817-18.

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