19/03/2017

março 19, 2017
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Livraria Shakespeare and Company, Paris

Acho que vou construir uma livraria-café. Charmosa, aconchegante, silenciosa, como um bistrô de livros onde você pode folheá-los, tomar um bom café e depois levar o volume que lhe seduziu para casa. Será fantástico! Quer dizer, seria.

Primeiro eu teria que roubar um banco ou ganhar na loteria (se jogasse) e depois, bem, depois os leitores teriam que recuar nos anos e voltar a se interessar por livrarias palpáveis, físicas, que não estejam na internet.

Esses leitores teriam que gostar da experiência de andar entre estantes sentindo o cheiro de madeira e de papel; teriam que gostar de ver pessoas novas, quem sabe conhecer um grande amigo, o amor da sua vida ali folheando um Tynianov, o gigante gentil Turguêniev, um Dostoiévski ou Toltói, Machado de Assis, Thomas Mann, Dino Buzzati, Nietzsche, Zygmunt Baumann, Graciliano Ramos, que adorava uns palavrões (“Vão todos para a puta que os pariu!”, disse ele certa vez em plena câmara dos deputados. Está lá no livro Rua do ouvidor 110, de Lucila Soares, sobre a livraria e editora José Olympio), enfim, quem sabe conhecer um amor ao primeiro livro compartilhado.

O caro leitor teria que gostar de sair de casa, de se aventurar na rua, de se deixar conhecer e conhecer outros seres, talvez de outros mundos, amigos do Orson Wells, misteriosos de Antonio Bioy Casares, complexos Borges. Esse ser leitor teria que gostar de se perder para se achar diferente, coberto por estantes do meu bistrô de livros; teria que gostar de colocar a mão no papel, tocá-lo, senti-lo, folhear um livro, abri-lo bem no meio, levá-lo ao rosto e afundar o nariz ali como faria no pescoço de sua amada.

Esse desbravador teria que gostar de sentir o cheiro da vida nas páginas de papel. Nada de nojo, de asco, de “sou alérgico a cheiro de livro”; não, meu bistrô não seria para os moderninhos cheios de não-me-toques, nojentamente assépticos (mas não também para os imundos) nem para os que só veem o mundo através de bits e bytes . Meu bistrô seria para os audazes, para aqueles que entram de cabeça e enfrentam “o crime e o castigo”, para os que não têm medo do “eu, um outro”, que não temem “a ilha do dia anterior” nem o senhor Boreau, que se aventuram nas “vidas secas” e que não vão deixar de se entregar à Capitu porque ela pode lhe trair. O amor é um risco, seja ele qual for.

Meu leitor seria o que busca viver, aproveitar um minuto de felicidade que seja, o que importa é ter história e experiência para contar e dividir; ele procuraria saber se “Deus está morto” e o que o filósofo alemão quis realmente dizer com isso; meu leitor não julgaria um livro por uma frase fora de contexto. Meu leitor, meu cliente, fã de café com biscoito e livros, seria um amante, um apaixonado pelas letras, leria o ocidente e o oriente, teria senso crítico e não se perderia em primeiras gôndolas, expositoras dos livros da moda na entrada de uma megastore qualquer – meu bistrô nem teria tais gôndolas.

Para ir ao meu bistrô, esse leitor precisaria sair de casa, trocar o digital pelo mecânico das suas pernas, das suas mãos e olhos e permitir se envolver com o mundo real, de pessoas reais, feias e bonitas, para adentrar no imaginário dos meus autores que diariamente conversariam nas minhas estantes, que tomariam um café à mesa com meus clientes, que seriam coniventes e alcoviteiros de paqueras por trás das estantes, que depois sentariam com eles na poltrona das suas casas e sob a luz do abajur; enquanto choveria lá fora, contar-lhes-iam uma fascinante história, “Se um viajante numa noite de inverno...”, porque meus desbravadores se permitiram ver o mundo além do muro. Assim seriam meus leitores.

Alguém aí conhece pessoas assim? Alguém aí tem uma centena de mil reais para me doar? Não peço emprestado porque há um grande risco de não ter como devolver depois. Sonhos, infelizmente, também conhecem a bancarrota.

Eu sei, o mundo real do qual lhes falo não parece muito real nos termos de hoje. Fomos solapados por uma economia que desarmoniza as diferentes partes de um corpo organizado, achacados pelos violentos, pelo medo, pelo verdadeiro mal, mas também vencidos pelas facilidades sedentárias que nos aprisionam ao computador ou celular, ao delivery, ao mundo fechado e protegido onde somente nós existimos com nossas verdades absolutas e preconceitos. Somos frágeis ao ar que se respira fora de nós.

Contudo, e apesar de tudo, vou fechar os olhos e quem sabe sonhar com os números da loteria para o meu bistrô livresco – e que o sonho não seja com a loteria de Shirley Jackson. Na minha, ninguém deve apedrejar ninguém.

Bom passeio e boa leitura!

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4 comentários :

  1. Belo sonho, Bill. Já assistiu ao Nunca te vi, sempre te amei? Seu bistrô me lembrou o do personagem de Anthony Hopkins na Londres do tempo da guerra. Outro dia me mandaram um filmezinho cheio de coisas com que convivi - tipo bonde, lambreta, máquina de escrever, caneta-tinteiro - e por falar em caneta-tinteiro, fiz uma pontinha num filme espírita, daí do Ceará - sobre Bezerra de Menezes - em que eu era um professor dele, Freyre Alemão. Minha cena foi rodada na Faculdade de Direito do Recife, que mantém uma sala exatamente como era no tempo de seus alunos mais famosos. As carteiras eram as mesmas das escolas de minha infância, inclusive com o vidro de tinta encaixado na tampa, todo mundo com aquelas canetas de madeira, pena de aço. Foi tão estranho viver a sequência, por causa disso, quanto a do filme Fogo Morto, em que sou o tenente Maurício, do Zé Lins, e chego a Pilar num vagão-restaurante que viera de Natal para as filmagens, a locomotiva ainda maria-fumaça. Mas seu sonho vale por si mesmo. Quem sabe alguém, com grana, lendo seu texto, não resolve convocá-lo? W.J. Solha

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    1. Meu amigo, Solha, sempre gentil em me ler e comentar, sobretudo em compartilhar suas histórias comigo e com meus leitores. Você teve e tem um rica vida cultural, além de ser um grande artista. Parabéns por isso.
      Sobre o filme com o Anthony Hopkins, sim, eu o assisti. Gosto muito dele. Quanto à caneta tinteiro, acredite, tenho algumas e as uso até hoje - muitos ainda usam, elas são vendidas normalmente e há, aqui mesmo no Brasil, lojas que consertam a vendem, inclusive aqui na cidade. Das que tenho, a preferida é uma famosa Parker 51 (em laca, pena de ouro 24 quilates).Já quanto a um mecenas que banque meu bistrô de livros, experiência com o comércio e com a vivência entre livros eu tenho, mas um mecenas para me dar esse presente, aí já é sonho demais ;-)
      Grande abraço!

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  2. Amei o texto! Fiquei me lembrando de um conto...que amo, onde o inusitado vai acontecendo e as pessoas nem percebem ,nem se dão conta. ..Oho minha doce! ruiva!(Eloisa )

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    1. Oi, Elô!
      Obrigado pela leitura e pelo comentário. E que conto é esse? As últimas palavras que escreveu são o nome do conto?

      Abraço!

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