07/09/2012

setembro 07, 2012
4
E ali estavam eles. Era uma conversa alegre na qual discutiam sobre suas bandas de Black Metal favoritas. Uma era melhor por isso, outra por aquilo, e outra ainda, acreditem, por aquilo outro. Cada um defendia com línguas e punhos cerrados a qualidade superior de sua banda por intermédio de discursos venéreos e bem estruturados, “Ei, macho, tu é doido é, Os Esfoladores do Diabo é muito melhor!”, “Tu quer bem dizer que o Sorrisos do Apocalipse é rúin é?!”, “Não, macho, eu gosto do Sorrisos, mas Os Esfoladores do Diabo são melhor”.

Assim tomavam toda a manhã com seus punhos em riste, suas bocas tortas ao canto exibindo os dentes trincados e as barrigas protuberantes. Mas a coisa melhorou. Chegaram umas meninas, garotas, jovens mulheres, damas do Metal, como preferirem, e esquentaram a discussão: “Mar minino, sô muito mais o Sorrisos do Apocalipse do que aqueles requenguelas dos Esfoladores”, disse a primeira, “As letras do Sorrisos são muito melhor, mais bem feitas, mais profundas”, disse outra, “É sim, tu num conhece a ‘Escavacando as entranhas da vítima púbere’?”, arrebatou a do lado, “A letra é linda, macho! Naquela hora que ele fala que tá mastigando a grosma pastosa das entranhas sacrificadas pelo espigão do deus das profundezas sombrias e geladas da pirâmide invertida no sétimo dia do renascimento do filho de Asturbagdala é lindo, cara!”, “É, é verdade, a letra é linda”, concordou o defensor dos Esfoladores, e continuou concordando, “Chega dá um negócio na gente, uma emoção nos fatos aqui da barriga, mas a letra de ‘Esquartejando o teu amor de luz’, dos Esfoladores do Diabo, é irada! Tu num acha não? Aquele negócio que ele diz de coma as cascas do teu mundo fedorento enquanto eu despedaço tua lingerie apocalíptica numa noite em que a lua derramará sangue feliz pelas vítimas do deus Krogus, assassino doce da humanidade cuspidora de vaidades sanguinolentas e egoístas como a lebre que não divide o caule da flor rosa-podre que nasceu na lama fétida dos intestinos da oferenda sete vezes enterrada é poesia pura, mermão! Né não?”, “É, a letra é linda, mas ainda prefiro o Sorrisos”, insistiu a primeira dama do Black Metal que se metera na discussão.

E assim continuaram pelo resto da manhã e, talvez, pela tarde inteira. Não fiquei lá para acompanhar o final de suas exposições que me seriam muito engrandecedoras, mas tenho certeza que ficaram bem sem mim.

O que importava para eles era saber defender suas paixões. Era tanta força naqueles jovens de trinta e poucos ou quarenta e poucos ou cinquenta e poucos anos; força suja de entranhas devoradas e lama do caos, é verdade, mas força.

Porém, espero que agora eu já possa voltar a comer sem ver no meu macarrão à bolonhesa os restos de alguém que foi destruído pelo deus dos esfolados ou do doce apocalipse. Amém!



Imagem: John Henry Fuseli, The Nightmare (Incubus), 1802.

4 comentários :

  1. Arlene Vasconcelossetembro 09, 2012 1:36 PM

    Muito bom, Will. A realidade sempre imitando a arte!

    ResponderExcluir
  2. Beleza, William. Um filho meu baixista de um grupo desses e era exatamente isso que v. escreveu.

    W. J. Solha

    ResponderExcluir
  3. Pois é, Arlene. A arte existe também para que a realidade a imite.
    Obrigado pela visita!

    ResponderExcluir
  4. É, Solha. Pelo menos são divertidos.

    ResponderExcluir

Voltar ao topo